sábado, 5 de outubro de 2013

Circovia

E o Menino palmeia a estrada de terra
Em busca de um sítio para o circo
Que jaz encalhado ao longe,
Maltrapilho sem lona,
 esfomeado circo absurdamente triste.
Mas ao chegar à vila seca
Encontra em cada habitante entocado
Um intocado circo ínfimo,
que aflora ao seu sorriso afoito e franco.
Todos narram de pronto suas visagens,
seus anseios de céu,
Suas sementes de sonho:
O pássaro cossaco que surge da memória da viúva,
Prisioneiro do Czar medroso do dentista,
Os noivos voadores da balconista desatenta
E o cabrito violinista que gargalha e debocha
Na boca da mendiga Felizarda.
O peixe que toma sol na via em rose,
dito em que língua sertaneza
Pelo açougueiro melancólico!
O violoncelista sem cabeça do encarcerado soldado
embebedado que toca para os
Os trigêmeos acrobatas que nunca colocam os pés no chão,
Visto que recém nascidos do olhar mortiço enxadeiro Ruão.
A bailarina e sua sombrinha cogumelamarela
Que brota sem mais nem menos
De uma cantiga daquela menina sem nome
sentada na quitanda de Seu Seleu.
O circo ínfimo assim se elabora em quimera
Cor a cor, gesto do pensamento de cada um ali isolado de tudo.
E o menino agora pode levar aos seus
Uma roupa digna para vestirem no dia da festa.
Roupa costurada a nada, pela mão do acaso
Com o delírio colhido em linho, linha de horizonte alheio
Agulha no palheiro encontrada na manhã
Que ainda não veio.

O sítio é o mundo dos vivos.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Publicado no Blog Sobre a Canção de Túlio Ceci Villaça. 
Acho que diante das palavras de Sérgio Santos, pouco ou nada poderia acrescentar, mas como fui uma espécie de provocador desse debate (em outro post!), e porque meus amigos Chico Saraiva e Túlio Ceci Villaça me cobraram uma atitude, vou fazer alguns breves comentários, certo?
Já afirmei anteriormente a minha discordância quase que integral com o texto do nosso querido Rômulo. Lá na frente, no post original com a matéria do Estadão, perguntei:
Por que o dito moderno tem que passar por esse alinhamento? Evidentemente, no lugar de moderno, queria dizer contemporâneo, e nesse sentido a minha pergunta é ecoada por Sérgio em sua última intervenção:
"No entanto, o colossal problema é quando vai alguém e inclui nessa discussão o conceito de evolução artística. Há, sim, evolução tecnológica. Mas nada me mostra que a música tenha que passar por esse caminho para evoluir. Nada me diz que ele tem, por si, algo que o faça dono da modernidade estética. Nada me mostra que seja imprescindível que a canção passe por esse caminho para significar novidade."
Considero esse o ponto crucial para o entendimento sobre o que se discute aqui. O que estamos querendo discutir, e talvez questionar, é um pensamento que vem se tornando hegemônico no âmbito da canção atual que valora positivamente as inovações tecnológicas e considera negativamente as inovações formais, estéticas, as inovações ligadas à invenção humana. E quando digo humana, poderia dizer inovações de alma, como as inovações de um Guinga, por exemplo!
E essas inovações da alma passam quase sempre por um novo posicionamento harmônico-melódico, ou não estamos falando de música?
Daí vem à minha mente o artigo de Francisco Bosco, no qual ele afirma que Chico se mantém a margem da história (ou da contemporaneidade) para inscrever sua obra no paraíso atemporal da forma. Também discordo. Em seus últimos trabalhos, e falo dos trabalhos desde a década de noventa, Chico vem realizando uma profunda varredura nos dramas contemporâneos, dialogando com o futuro que já se torna efêmero, e dele tirando o sumo do que é humano. Gritantemente humano. Usa para tal empreitada, uma gama de recursos formais que parece ilimitada, brinca com palavras, frases musicais sem apoio, incorpora inovações rítmicas, desenhos inusitados, falsos refrões, enfim, faz da canção tradicional um maleável material para alcançar a expressão do que é mais perene e que não nos abandonara nunca: nossa finitude.
Mas parece que é exatamente nesse ponto que ele se afasta, ou se afastam dele. Suas personagens já não são mais tão encarnadas, elas carecem de história. Elas acompanham seu tempo e o denunciam. Suas melodias se esgarçam, e os próprios arranjos parecem passear propositalmente pelo pastiche. Onde Fróes enxerga redundância, eu vejo uma afinação com os valores correntes. O que é essa ondavintage senão uma apropriação pela canção de um conceito do mundo da moda? A valorização dos timbres em detrimento da forma não seriam um alinhamento à desconstrução das narrativas, ou uma aproximação ao conceito da supremacia do suporte sobre o desenho em artes plásticas? Pois bem, Chico compreende esse momento e se permite atuar fora do palco com os elementos dessa Cena (Outra apropriação da canção). Ele, mais uma vez, com a maturidade e leveza de espírito que sempre o caracterizaram, faz dessa cena sua ceia. Antropofágica?! Rsrs!
A pergunta que se coloca nesse caso é: Para que serve a canção? A forma acompanha a função. Bauhaus? Chico se vale da canção para modificar, eu diria, transformar nossa percepção do mundo, se vale dela para nos instigar. Podemos afirmar que ele é apolíneo? Eu reconheço muito mais em seu aprofundamento o bafejo do deus campesino da colheita e dos bacanais. Pulsação de morte-e-vida é o que não falta em toda obra do nosso Chico. E não só na dele. Toda a sua geração via na canção um lugar de arte. A canção atual parece, a meu ver, querer se aproximar cada vez mais de um alinhamento com a realidade, se valendo de recursos publicitários no que diz respeito às “idéias vencedoras”, e por outro lado se justificando melodicamente através num entendimento automático do público. Recurso publicitário. Melodias quase infantilizadas, profusão de timbres, recuperação de estilos, letras que prescindem das narrativas com frases suicidadas, abandono dos elementos de ligação, desprezo pela prosódia e, paradoxalmente,, também pela poética! Temos assim um quadro assustador, no qual o acessório toma o lugar do imprescindível! Bastam atitude, descompromisso, e só.
E a crítica, com raras exceções, parece inapta para captar essas transformações e dá notícias de dentro do furação. Evidentemente, muitos estão mais dentro do furacão do que outros, se vocês me entendem. O ferramental da maioria não ultrapassa os (pre)conceitos de uma geração formatada para pensar a canção do ponto de vista do pop anglo-saxônico. E a partir desse mirante, toda a produção cancional brasileira, realmente, pode parecer deformada. São linguagens muito distintas, embora tenham seus pontos de tangência.
Quero deixar claro aqui que abraço todos os recursos e não hesitei em usá-los no meu CD Transeunte, assim como não hesitarei em meus trabalhos posteriores, mas desejarei sempre que todos esses infindáveis recursos (com botões ou sem botões) estejam a serviço da emoção, da expressão, da comunicabilidade, da poética, da música, da canção enfim.
E não o contrário.
Abraço grande, companheiros.
Mauro Aguiar

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Aqui estou eu atravessando a madrugada, pensamentando o fim da canção, tanto no sentido utilitário da palavra fim, como no seu sentido terminal.  Outro dia, lendo a revista “Serrote”, achei uma seção de vídeos nomeada “Desentendimentos”. Nesse número, Rômulo Fróes debate o “Mal Estar na Canção”com Walter Garcia, mediados por Paulo da Costa e Silva.
Quando indagado sobre as causas da crise na canção, Rômulo respondeu com uma frase lapidar, que a meu ver traduz perfeitamente o pensamento dominante de muitos compositores e suas escolhas estéticas. Veja bem, a canção está em crise por que:

“ a canção não tem mais o papel principal dentro de um trabalho. Existem coisas que vão muito além da criação melódica ou harmônica”

Ou seja a canção está em crise porque ela não é mais o foco da canção. Como? O foco é o “Trabalho”. E o que seria o “Trabalho”?
Fica difícil realmente entender, mas eu peço emprestado um conceito do meu outro parceiro Wisnik, o de “canção expandida”, expressão com a qual ele define o que se anda fazendo “modernamente” com a canção e as experimentações sonoras que acompanham essa dita expansão.
Talvez aqui nesse ponto fosse melhor lançar mão de um gráfico para tentar situar o que a “Canção Expandida” implica, mas como estamos numa discussão de post, vou tentar descrever o que a meu ver significa essa expansão.
Imaginemos no centro de um diedro, uma esfera, e dentro dessa esfera, outras quatro esferas em interseção. As quatro esferas são coloridas, cada uma com uma cor e representam melodia, ritmo, harmonia, e letra. Elas são o núcleo da canção. Agora imaginemos outros círculos menores, circulando em torno deste, como eletróns, ou outras partículas subatômicas. Sim, essas partículas que estão em torno da canção são a tecnologia( softwares de manipulação de som), o marketing, as artes plásticas, a moda, a própria realidade(!), a mídia, o comportamento ( atitude), as tribos, etc. etc.
O que acontece então quando é feita uma expansão do núcleo da canção na direção de algum, ou mesmo na direção de vários desses elementos periféricos? Uma desagregação. Porque a “canção expandida” não trabalha no sentido do núcleo, atrair essas esferas e se fortalecer como núcleo. Ela trabalha no sentido de esgarçar, fissurar e desagregar o núcleo para super-dimensionar as esferas periféricas. Evidentemente toda essa teorização só poderá ser levada em conta considerando-se a premissa da canção como uma arte híbrida. Bem, o movimento de duas esferas, ritmo e letra, por exemplo, se desagregando do núcleo e caminhando em direção à esfera do comportamental, explica o surgimento do rap.  Mas a crise em si, é maior quando todas as esferas do núcleo da canção, são esticadas em todos os sentidos e começam a virar balões transparentes, frágeis e sem conteúdo. Daí, vemos o nascimento dessa canção cartilaginosa que possui vários aspectos mensuráveis e nomeáveis.

Um deles a alta densidade de clichês melódicos e idiomáticos utilizado pelos novos criadores, mesmo naqueles que pensam estar recortando a realidade num instantâneo despretensioso. A utilização do clichê é filha direta do ”faça você mesmo”, da criação caseira, que dispensa o trabalho consciente e inconsciente com o instrumento, o labor e a maturação, o tempo de contemplação, o afastamento da obra. Todo instrumento criado pelo ser humano, seja um garfo ou uma bomba-atômica traz nele embutido o cerne de uma cultura e gera outras culturas a partir do seu manuseio. Como nos afastar se estamos inseridos no instrumento-estúdio? Se nossa consciência foi capturada pelo software?  Esse não afastamento e volta à obra no momento mesmo da criação, acaba gerando discursos vazios para audições vazias. Esse embaralhar de clichês é justificado pelos seguintes argumentos.

1-a
Tudo já foi criado, não existe mais criação possível, nossa geração agora dispõe dessa imensa biblioteca disponível de clichês para trabalhar.
Seria mais ou menos como se eu me recusasse a usar as palavras do dicionário, ou expressões idiomáticas para escrever um livro ou mesmo uma letra de música me servindo de frases pinçadas dos livros de Kafka, Drummond, ou Patativa do Assaré. A collage como regra, como dogma e não como recurso, citação, reforço ou paralelo.

2-b
A canção tem que ser palatável, reconhecível, tem que percorrer o mesmo caminho mental de outras canções anteriores.
A consequência desse pensamento é o emparelhamento da “canção expandida” com as mesmas canções publicitárias, macias e passageiras. Um desavisado poderia pensar estar ouvindo jingles de automóveis ou margarinas. E estamos! A frase musical que mobiliza determinada classe social para a compra de um produto, na maioria dos casos prefere os caminhos em que os neurônios ficam mais descansados e felizes. Não há desestruturação. E daí temos o terceiro elemento.

3-b
A canção tem de ser de auto-ajuda. Assim como nas livrarias proliferam os títulos de auto-ajuda, também nas rádios e afins, pululam as canções de incentivo, verdadeiros manuais de comportamento ( vou pra onde tenha sol, é preciso saber viver, procuro um amor que seja assim, assado, você deve fazer isso, etc). Essa canção de auto-ajuda é a música anestésica aos males das grandes metrópoles, ela alivia o stress do rush, ela funciona como um Lexapro, um Rivotril sonoro, evitando o conflito e a incerteza.
Versos como:

Olho no olho
E flor no jardim
Flor, amor
Vento devagar
Vem, vai, vem mais!

São alívios diante de uma realidade crua, de uma competição desenfreada, diante de revoluções diárias do nosso capitalismo ultra-dinâmico que elevou a incerteza a níveis macro-cósmicos e micro-cósmicos.
Em outro lugar, mas não sem a mesma incapacidade de dialogar com o núcleo da canção, encontra-se a crua palavra dos Racionais ( Citados no debate acima referido como “artisticamente” mais relevantes que Chico Buarque, em determinado período). Trabalhando a fala ritmada e os samplers, eles se voltam contra essa sociedade que os marginaliza e oprime, sociedade que produz e consome essa música de margarina citada acima e os softwares e hardwares que eles utilizam para fazer o seu rap. Usam o ferramental à sua disposição e se irmanam com as periferias de todas as metrópoles em sua ira contra o sistema. Mas são absorvidos pelo mesmo na figura de um Criolo, de um Marcelo DJ, pelo simples fato de que a cultura de gueto que gerou essa forma de expressão foi comercializada e enquadrada há décadas pela indústria do entretenimento. Temos aí duas vertentes inconciliáveis, um problema de fissura na própria sociedade, o que inviabiliza a canção como ela nos foi proposta pelos predecessores. A canção urbana que nasceu radiofônica, se desenvolveu comercialmente como entretenimento, migrou para a TV na década de 60, época em que a TV ainda aproveitava as formas do rádio ( novelas, programas de auditório, etc), essa canção foi totalmente re-trabalhada a partir da bossa-nova por uma geração que quis se servir dela para projetos estéticos e comportamentais mais ambiciosos. A grande diferença dessa geração, para a atual é que a expressão “se servir dela” não significou para eles abandonar o modo criador ( aquele núcleo híbrido), mas também aprofundá-lo, destrinchando e emancipando a melodia, a harmonia, a letra, libertando-as dos clichês e fazendo com que o núcleo de avolumasse e pudesse ocupar os outros espaços periféricos como o comportamental, a mídia, a tecnologia, etc etc. O desenho proposto por esses mestres que estão aí até hoje, com uma vitalidade desafiadora ( a introdução do poético no coloquial sem a desestruturação do coloquial, paradoxo bem-vindo e sutilmente elaborado sem arestas, os comentários jobiniamos, preservando o aspecto melódico se valendo do improviso do jazz. Tantas e muitas conquistas! ), é o desenho da expansão do núcleo e o abarcamento pelo núcleo dos sentidos periféricos.

Mas o que vemos atualmente é o desafio do intraduzível, uma sociedade complexa que lida com a censura velada dos meios de comunicação, a explosão de redes sociais, a falência de um modelo alternativo , o homem caminhando para o pós-humano, a melancolia e a tristeza sendo tratadas como doenças, etc, etc. Como dar conta disso?

Pelo que podemos perceber nessa nova canção, o recurso é adesão ao sistema, se valendo do discurso que ultrapassa o icônico e caminha na direção da insignificância (não no sentido pejorativo, veja bem!)
É a chamada Marcelocamelização da sintaxe. Que tem suas raízes da Arnaldantunização da letra de música. Só posso esclarecer melhor o meu ponto de vista me servindo de algum enxerto, portanto perdoa-me colega a citação:

todos os encontros, todos os poemas
manda me avisar, manda me avisar

Toda beira é final de dois

Mais um pouco e vai dar sinal
Brinco de esconder
Caminho de fé não vou mais

Vida que é doce levar avisa de lá que eu já sei

Essa falta de conexão entre os elementos, a justaposição gratuita é levada ao extremo por outros autores dessa geração, afinal de contas o assunto recorrente é o nada.
Há pouco tempo, fiz uma experiência. Escutei por um dia inteiro uma determinada rádio carioca, que diz MPB ser tudo, e pude verificar que o tema de 80% das canções eram o Nada, a Negação, a Evasão, e outras formas de Vazio. 
O projeto Caetânico, de transposição da poesia concreta e da música concretista para a canção, encontrou seguidores e adeptos em várias frentes e veio desaguar nessa geração que trabalha os tijolos sobrepostos usando imagens destituídas de qualquer sentido inerente. Como Ítalo Calvino afirma em suas “Seis Propostas Para o Próximo Milênio”, comentando a fraqueza dos significados das imagens em clips e a sua proliferação indiscriminada.

Outro aspecto que decorre destes todos antes comentados é a valorização das sonoridades em detrimento da harmonia.
Vivemos a época dos engenheiros de som e dos produtores pagos a peso de ouro.
Hoje em dia um trabalho vale mais pelos produtores que a ele estão associados do que pelo conteúdo artístico do mesmo. Houve a época dos arranjadores, dos arregimentadores, Francis, Radamés, Duprat. Hoje falamos em Kassim, Alê, Tom Capone, Campelo, etc etc. Não estou aqui defenestrando o trabalho dessas pessoas, olha lá! O que eu quero frisar é a mudança de foco do que seria essencial para se produzir, criar música.
Esse é mais um movimento do núcleo da esfera no sentido da tecnologia, esgarçando a sub-esfera da harmonia. Porque não aproximar a tecnologia do núcleo da canção e amplificar esse núcleo com a percepção expandida dessas novas ferramentas. Um amigo meu disse muito apropriadamente que o que os mais desconfiados chamam “barulhinhos” ele chama de ampliação das capacidades perceptivas. O problema é que a tecnologia é um fetiche, ela cria seguidores. Tratam Jobs como um Novo Cristo de Silício. É fascinação por fios, pedais, telas de lítio. O homem tentando o salto de uma criação pós-humana acaba criando uma música pós-humana, como em Recanto da Gal-caetano. Música que deverá ser fluída melhor pelas futuras consciências artificiais.

Enquanto isso os pássaros ainda voam de árvore em árvore.

Tenho muitos parceiros que são considerados apenas instrumentistas. Eles tocam para viver, como fazia também Tom Jobim. Tem que abandonar a canção, pois a canção hoje em dia é praticamente proibida aos instrumentistas. Os modernos criadores de canções acham que o manejo de um instrumento e o estudo harmônico são dispensáveis, e até mesmo prejudiciais a uma criação mais leve e espontânea.
Eu sou da opinião que deveríamos fazer o movimento contrário. É preciso que não tenhamos medo da influência, não nesse sentido de abandono ou enfrentamento vazio dos mestres, mas na dissecação dos seus cadáveres insepultos. Eles estão aí. Onde as escolas Dori Caymmi? Onde os Guingas multiplicados e transformados? Onde os Joãos Boscos percorrendo vielas de todo o país? Porque o governo brasileiro trata o cinema com tantas benesses e a música, nosso maior patrimônio fica sujeita ao mercado?

Questões. Falei demais em todos os sentidos.
Mas a conversa é longa, não pararia aqui.

Deixo minha canção manifesto-mínimo que praticamente pede um adiamento do fim da canção, letra musicada por Wisnik.

Nossa Canção   
José Miguel Wisnik / Mauro Aguiar

Nossa canção guarda canções diversas.
Minha ilusão, tua emoção
Mil dimensões imersas.
Outras virão buscando a luz,
De cais em cais,
Naus sobre naus: espessas.
Pois as canções só são canções
Quando não são promessas.

Nessa canção cabem canções dispersas.
Minha razão, teu coração,
Mil sensações avessas.
Outras virão de encontro a nós,
De voz em voz,
De par em par: esparsas.
Pois as canções só são canções
Quando não são mais nossas.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Transeunte

Pois bem, aqui estamos.
Vamos falar de cada canção, dos seus propósitos, dos seus fins.
Dos seus afins, e desafinados sentidos.
Vamos falar de poesia, no meio-fio e na folha em branco.
Falar da fala, calar semanas. Atear chamas no próprio corpo do óbvio.
Vamos falar de música, usinas, usos, sons.
Vamos falar de encenação, urdimento da mente atenta.
Vamos falar o que der na veneta, lavra reta, a desfunção do poeta.