sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Publicado no Blog Sobre a Canção de Túlio Ceci Villaça. 
Acho que diante das palavras de Sérgio Santos, pouco ou nada poderia acrescentar, mas como fui uma espécie de provocador desse debate (em outro post!), e porque meus amigos Chico Saraiva e Túlio Ceci Villaça me cobraram uma atitude, vou fazer alguns breves comentários, certo?
Já afirmei anteriormente a minha discordância quase que integral com o texto do nosso querido Rômulo. Lá na frente, no post original com a matéria do Estadão, perguntei:
Por que o dito moderno tem que passar por esse alinhamento? Evidentemente, no lugar de moderno, queria dizer contemporâneo, e nesse sentido a minha pergunta é ecoada por Sérgio em sua última intervenção:
"No entanto, o colossal problema é quando vai alguém e inclui nessa discussão o conceito de evolução artística. Há, sim, evolução tecnológica. Mas nada me mostra que a música tenha que passar por esse caminho para evoluir. Nada me diz que ele tem, por si, algo que o faça dono da modernidade estética. Nada me mostra que seja imprescindível que a canção passe por esse caminho para significar novidade."
Considero esse o ponto crucial para o entendimento sobre o que se discute aqui. O que estamos querendo discutir, e talvez questionar, é um pensamento que vem se tornando hegemônico no âmbito da canção atual que valora positivamente as inovações tecnológicas e considera negativamente as inovações formais, estéticas, as inovações ligadas à invenção humana. E quando digo humana, poderia dizer inovações de alma, como as inovações de um Guinga, por exemplo!
E essas inovações da alma passam quase sempre por um novo posicionamento harmônico-melódico, ou não estamos falando de música?
Daí vem à minha mente o artigo de Francisco Bosco, no qual ele afirma que Chico se mantém a margem da história (ou da contemporaneidade) para inscrever sua obra no paraíso atemporal da forma. Também discordo. Em seus últimos trabalhos, e falo dos trabalhos desde a década de noventa, Chico vem realizando uma profunda varredura nos dramas contemporâneos, dialogando com o futuro que já se torna efêmero, e dele tirando o sumo do que é humano. Gritantemente humano. Usa para tal empreitada, uma gama de recursos formais que parece ilimitada, brinca com palavras, frases musicais sem apoio, incorpora inovações rítmicas, desenhos inusitados, falsos refrões, enfim, faz da canção tradicional um maleável material para alcançar a expressão do que é mais perene e que não nos abandonara nunca: nossa finitude.
Mas parece que é exatamente nesse ponto que ele se afasta, ou se afastam dele. Suas personagens já não são mais tão encarnadas, elas carecem de história. Elas acompanham seu tempo e o denunciam. Suas melodias se esgarçam, e os próprios arranjos parecem passear propositalmente pelo pastiche. Onde Fróes enxerga redundância, eu vejo uma afinação com os valores correntes. O que é essa ondavintage senão uma apropriação pela canção de um conceito do mundo da moda? A valorização dos timbres em detrimento da forma não seriam um alinhamento à desconstrução das narrativas, ou uma aproximação ao conceito da supremacia do suporte sobre o desenho em artes plásticas? Pois bem, Chico compreende esse momento e se permite atuar fora do palco com os elementos dessa Cena (Outra apropriação da canção). Ele, mais uma vez, com a maturidade e leveza de espírito que sempre o caracterizaram, faz dessa cena sua ceia. Antropofágica?! Rsrs!
A pergunta que se coloca nesse caso é: Para que serve a canção? A forma acompanha a função. Bauhaus? Chico se vale da canção para modificar, eu diria, transformar nossa percepção do mundo, se vale dela para nos instigar. Podemos afirmar que ele é apolíneo? Eu reconheço muito mais em seu aprofundamento o bafejo do deus campesino da colheita e dos bacanais. Pulsação de morte-e-vida é o que não falta em toda obra do nosso Chico. E não só na dele. Toda a sua geração via na canção um lugar de arte. A canção atual parece, a meu ver, querer se aproximar cada vez mais de um alinhamento com a realidade, se valendo de recursos publicitários no que diz respeito às “idéias vencedoras”, e por outro lado se justificando melodicamente através num entendimento automático do público. Recurso publicitário. Melodias quase infantilizadas, profusão de timbres, recuperação de estilos, letras que prescindem das narrativas com frases suicidadas, abandono dos elementos de ligação, desprezo pela prosódia e, paradoxalmente,, também pela poética! Temos assim um quadro assustador, no qual o acessório toma o lugar do imprescindível! Bastam atitude, descompromisso, e só.
E a crítica, com raras exceções, parece inapta para captar essas transformações e dá notícias de dentro do furação. Evidentemente, muitos estão mais dentro do furacão do que outros, se vocês me entendem. O ferramental da maioria não ultrapassa os (pre)conceitos de uma geração formatada para pensar a canção do ponto de vista do pop anglo-saxônico. E a partir desse mirante, toda a produção cancional brasileira, realmente, pode parecer deformada. São linguagens muito distintas, embora tenham seus pontos de tangência.
Quero deixar claro aqui que abraço todos os recursos e não hesitei em usá-los no meu CD Transeunte, assim como não hesitarei em meus trabalhos posteriores, mas desejarei sempre que todos esses infindáveis recursos (com botões ou sem botões) estejam a serviço da emoção, da expressão, da comunicabilidade, da poética, da música, da canção enfim.
E não o contrário.
Abraço grande, companheiros.
Mauro Aguiar

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