sábado, 5 de outubro de 2013

Circovia

E o Menino palmeia a estrada de terra
Em busca de um sítio para o circo
Que jaz encalhado ao longe,
Maltrapilho sem lona,
 esfomeado circo absurdamente triste.
Mas ao chegar à vila seca
Encontra em cada habitante entocado
Um intocado circo ínfimo,
que aflora ao seu sorriso afoito e franco.
Todos narram de pronto suas visagens,
seus anseios de céu,
Suas sementes de sonho:
O pássaro cossaco que surge da memória da viúva,
Prisioneiro do Czar medroso do dentista,
Os noivos voadores da balconista desatenta
E o cabrito violinista que gargalha e debocha
Na boca da mendiga Felizarda.
O peixe que toma sol na via em rose,
dito em que língua sertaneza
Pelo açougueiro melancólico!
O violoncelista sem cabeça do encarcerado soldado
embebedado que toca para os
Os trigêmeos acrobatas que nunca colocam os pés no chão,
Visto que recém nascidos do olhar mortiço enxadeiro Ruão.
A bailarina e sua sombrinha cogumelamarela
Que brota sem mais nem menos
De uma cantiga daquela menina sem nome
sentada na quitanda de Seu Seleu.
O circo ínfimo assim se elabora em quimera
Cor a cor, gesto do pensamento de cada um ali isolado de tudo.
E o menino agora pode levar aos seus
Uma roupa digna para vestirem no dia da festa.
Roupa costurada a nada, pela mão do acaso
Com o delírio colhido em linho, linha de horizonte alheio
Agulha no palheiro encontrada na manhã
Que ainda não veio.

O sítio é o mundo dos vivos.

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