Aqui estou eu atravessando a madrugada, pensamentando o fim
da canção, tanto no sentido utilitário da palavra fim, como no seu sentido
terminal. Outro dia, lendo a revista “Serrote”,
achei uma seção de vídeos nomeada “Desentendimentos”. Nesse número, Rômulo
Fróes debate o “Mal Estar na Canção”com Walter Garcia, mediados por Paulo da
Costa e Silva.
Quando indagado sobre as causas da crise na canção, Rômulo
respondeu com uma frase lapidar, que a meu ver traduz perfeitamente o
pensamento dominante de muitos compositores e suas escolhas estéticas. Veja
bem, a canção está em crise por que:
“ a canção não tem mais o papel principal dentro de um
trabalho. Existem coisas que vão muito além da criação melódica ou harmônica”
Ou seja a canção está em crise porque ela não é mais o foco
da canção. Como? O foco é o “Trabalho”. E o que seria o “Trabalho”?
Fica difícil realmente entender, mas eu peço emprestado um
conceito do meu outro parceiro Wisnik, o de “canção expandida”, expressão com a
qual ele define o que se anda fazendo “modernamente” com a canção e as
experimentações sonoras que acompanham essa dita expansão.
Talvez aqui nesse ponto fosse melhor lançar mão de um
gráfico para tentar situar o que a “Canção Expandida” implica, mas como estamos
numa discussão de post, vou tentar descrever o que a meu ver significa essa
expansão.
Imaginemos no centro de um diedro, uma esfera, e dentro
dessa esfera, outras quatro esferas em interseção. As quatro
esferas são coloridas, cada uma com uma cor e representam melodia, ritmo,
harmonia, e letra. Elas são o núcleo da canção. Agora imaginemos outros círculos
menores, circulando em torno deste, como eletróns, ou outras partículas
subatômicas. Sim, essas partículas que estão em torno da canção são a
tecnologia( softwares de manipulação de som), o marketing, as artes plásticas,
a moda, a própria realidade(!), a mídia, o comportamento ( atitude), as tribos,
etc. etc.
O que acontece então quando é feita uma expansão do núcleo
da canção na direção de algum, ou mesmo na direção de vários desses elementos
periféricos? Uma desagregação. Porque a “canção expandida” não trabalha no
sentido do núcleo, atrair essas esferas e se fortalecer como núcleo. Ela
trabalha no sentido de esgarçar, fissurar e desagregar o núcleo para super-dimensionar
as esferas periféricas. Evidentemente toda essa teorização só poderá ser levada
em conta considerando-se a premissa da canção como uma arte híbrida. Bem, o
movimento de duas esferas, ritmo e letra, por exemplo, se desagregando do
núcleo e caminhando em direção à esfera do comportamental, explica o surgimento
do rap. Mas a crise em si, é maior
quando todas as esferas do núcleo da canção, são esticadas em todos os sentidos
e começam a virar balões transparentes, frágeis e sem conteúdo. Daí, vemos o
nascimento dessa canção cartilaginosa que possui vários aspectos mensuráveis e
nomeáveis.
Um deles a alta densidade de clichês melódicos e idiomáticos
utilizado pelos novos criadores, mesmo naqueles que pensam estar recortando a
realidade num instantâneo despretensioso. A utilização do clichê é filha direta
do ”faça você mesmo”, da criação caseira, que dispensa o trabalho consciente e
inconsciente com o instrumento, o labor e a maturação, o tempo de contemplação,
o afastamento da obra. Todo instrumento criado pelo ser humano, seja um garfo
ou uma bomba-atômica traz nele embutido o cerne de uma cultura e gera outras
culturas a partir do seu manuseio. Como nos afastar se estamos inseridos no
instrumento-estúdio? Se nossa consciência foi capturada pelo software? Esse não afastamento e volta à obra no
momento mesmo da criação, acaba gerando discursos vazios para audições vazias. Esse
embaralhar de clichês é justificado pelos seguintes argumentos.
1-a
Tudo já foi criado, não existe mais criação possível, nossa
geração agora dispõe dessa imensa biblioteca disponível de clichês para
trabalhar.
Seria mais ou menos como se eu me recusasse a usar as
palavras do dicionário, ou expressões idiomáticas para escrever um livro ou
mesmo uma letra de música me servindo de frases pinçadas dos livros de Kafka,
Drummond, ou Patativa do Assaré. A collage como regra, como dogma e não como
recurso, citação, reforço ou paralelo.
2-b
A canção tem que ser palatável, reconhecível, tem que
percorrer o mesmo caminho mental de outras canções anteriores.
A consequência desse pensamento é
o emparelhamento da “canção expandida” com as mesmas canções publicitárias,
macias e passageiras. Um desavisado poderia pensar estar ouvindo jingles de
automóveis ou margarinas. E estamos! A frase musical que mobiliza determinada
classe social para a compra de um produto, na maioria dos casos prefere os
caminhos em que os neurônios ficam mais descansados e felizes. Não há
desestruturação. E daí temos o terceiro elemento.
3-b
A canção tem de ser de auto-ajuda. Assim como nas livrarias
proliferam os títulos de auto-ajuda, também nas rádios e afins, pululam as
canções de incentivo, verdadeiros manuais de comportamento ( vou pra onde tenha
sol, é preciso saber viver, procuro um amor que seja assim, assado, você deve
fazer isso, etc). Essa canção de auto-ajuda é a música anestésica aos males das
grandes metrópoles, ela alivia o stress do rush, ela funciona como um Lexapro,
um Rivotril sonoro, evitando o conflito e a incerteza.
Versos como:
Olho no olho
E flor no jardim
Flor, amor
Vento devagar
Vem, vai, vem mais!
São alívios diante de uma realidade crua, de uma competição
desenfreada, diante de revoluções diárias do nosso capitalismo ultra-dinâmico
que elevou a incerteza a níveis macro-cósmicos e micro-cósmicos.
Em outro lugar, mas não sem a mesma incapacidade de dialogar
com o núcleo da canção, encontra-se a crua palavra dos Racionais ( Citados no
debate acima referido como “artisticamente” mais relevantes que Chico Buarque,
em determinado período). Trabalhando a fala ritmada e os samplers, eles se
voltam contra essa sociedade que os marginaliza e oprime, sociedade que produz
e consome essa música de margarina citada acima e os softwares e hardwares que
eles utilizam para fazer o seu rap. Usam o ferramental à sua disposição e se
irmanam com as periferias de todas as metrópoles em sua ira contra o sistema.
Mas são absorvidos pelo mesmo na figura de um Criolo, de um Marcelo DJ, pelo
simples fato de que a cultura de gueto que gerou essa forma de expressão foi
comercializada e enquadrada há décadas pela indústria do entretenimento. Temos
aí duas vertentes inconciliáveis, um problema de fissura na própria sociedade,
o que inviabiliza a canção como ela nos foi proposta pelos predecessores. A
canção urbana que nasceu radiofônica, se desenvolveu comercialmente como
entretenimento, migrou para a TV na década de 60, época em que a TV ainda
aproveitava as formas do rádio ( novelas, programas de auditório, etc), essa
canção foi totalmente re-trabalhada a partir da bossa-nova por uma geração que
quis se servir dela para projetos estéticos e comportamentais mais ambiciosos.
A grande diferença dessa geração, para a atual é que a expressão “se servir
dela” não significou para eles abandonar o modo criador ( aquele núcleo
híbrido), mas também aprofundá-lo, destrinchando e emancipando a melodia, a
harmonia, a letra, libertando-as dos clichês e fazendo com que o núcleo de
avolumasse e pudesse ocupar os outros espaços periféricos como o
comportamental, a mídia, a tecnologia, etc etc. O desenho proposto por esses
mestres que estão aí até hoje, com uma vitalidade desafiadora ( a introdução do
poético no coloquial sem a desestruturação do coloquial, paradoxo bem-vindo e
sutilmente elaborado sem arestas, os comentários jobiniamos, preservando o
aspecto melódico se valendo do improviso do jazz. Tantas e muitas conquistas! ),
é o desenho da expansão do núcleo e o abarcamento pelo núcleo dos sentidos
periféricos.
Mas o que vemos atualmente é o desafio do intraduzível, uma
sociedade complexa que lida com a censura velada dos meios de comunicação, a
explosão de redes sociais, a falência de um modelo alternativo , o homem
caminhando para o pós-humano, a melancolia e a tristeza sendo tratadas como
doenças, etc, etc. Como dar conta disso?
Pelo que podemos perceber nessa nova canção, o recurso é
adesão ao sistema, se valendo do discurso que ultrapassa o icônico e caminha na
direção da insignificância (não no sentido pejorativo, veja bem!)
É a chamada Marcelocamelização da sintaxe. Que tem suas raízes
da Arnaldantunização da letra de música. Só posso esclarecer melhor o meu ponto
de vista me servindo de algum enxerto, portanto perdoa-me colega a citação:
todos os
encontros, todos os poemas
manda me avisar, manda me avisar
Toda beira é final de dois
Mais um
pouco e vai dar sinal
Brinco de esconder
Caminho de fé não vou mais
Vida que é doce levar
avisa de lá que eu já sei
Essa falta de conexão entre os elementos, a justaposição gratuita é
levada ao extremo por outros autores dessa geração, afinal de contas o assunto
recorrente é o nada.
Há pouco tempo, fiz uma
experiência. Escutei por um dia inteiro uma determinada rádio carioca, que diz
MPB ser tudo, e pude verificar que o tema de 80% das canções eram o Nada, a
Negação, a Evasão, e outras formas de Vazio.
O projeto Caetânico, de
transposição da poesia concreta e da música concretista para a canção,
encontrou seguidores e adeptos em várias frentes e veio desaguar nessa geração
que trabalha os tijolos sobrepostos usando imagens destituídas de qualquer
sentido inerente. Como Ítalo Calvino afirma em suas “Seis Propostas Para o Próximo
Milênio”, comentando a fraqueza dos significados das imagens em clips e a sua
proliferação indiscriminada.
Outro aspecto que decorre destes todos antes
comentados é a valorização das sonoridades em detrimento da harmonia.
Vivemos a época dos engenheiros de som e dos
produtores pagos a peso de ouro.
Hoje em dia um trabalho vale mais pelos
produtores que a ele estão associados do que pelo conteúdo artístico do mesmo. Houve
a época dos arranjadores, dos arregimentadores, Francis, Radamés, Duprat. Hoje
falamos em Kassim, Alê, Tom Capone, Campelo, etc etc. Não estou aqui
defenestrando o trabalho dessas pessoas, olha lá! O que eu quero frisar é a
mudança de foco do que seria essencial para se produzir, criar música.
Esse é mais um movimento do núcleo da esfera no
sentido da tecnologia, esgarçando a sub-esfera da harmonia. Porque não
aproximar a tecnologia do núcleo da canção e amplificar esse núcleo com a
percepção expandida dessas novas ferramentas. Um amigo meu disse muito
apropriadamente que o que os mais desconfiados chamam “barulhinhos” ele chama
de ampliação das capacidades perceptivas. O problema é que a tecnologia é um
fetiche, ela cria seguidores. Tratam Jobs como um Novo Cristo de Silício. É
fascinação por fios, pedais, telas de lítio. O homem tentando o salto de uma
criação pós-humana acaba criando uma música pós-humana, como em Recanto da
Gal-caetano. Música que deverá ser fluída melhor pelas futuras consciências
artificiais.
Enquanto isso os pássaros ainda voam de árvore
em árvore.
Tenho muitos parceiros que são considerados
apenas instrumentistas. Eles tocam para viver, como fazia também Tom Jobim. Tem
que abandonar a canção, pois a canção hoje em dia é praticamente proibida aos
instrumentistas. Os modernos criadores de canções acham que o manejo de um
instrumento e o estudo harmônico são dispensáveis, e até mesmo prejudiciais a
uma criação mais leve e espontânea.
Eu sou da opinião que deveríamos fazer o
movimento contrário. É preciso que não tenhamos medo da influência, não nesse
sentido de abandono ou enfrentamento vazio dos mestres, mas na dissecação dos
seus cadáveres insepultos. Eles estão aí. Onde as escolas Dori Caymmi? Onde os
Guingas multiplicados e transformados? Onde os Joãos Boscos percorrendo vielas
de todo o país? Porque o governo brasileiro trata o cinema com tantas benesses
e a música, nosso maior patrimônio fica sujeita ao mercado?
Questões. Falei demais em todos os sentidos.
Mas a conversa é longa, não pararia aqui.
Deixo minha canção manifesto-mínimo que
praticamente pede um adiamento do fim da canção, letra musicada por Wisnik.
Nossa Canção
José Miguel Wisnik / Mauro
Aguiar
Nossa canção guarda canções
diversas.
Minha ilusão, tua emoção
Mil dimensões imersas.
Outras virão buscando a luz,
De cais em cais,
Naus sobre naus: espessas.
Pois as canções só são canções
Quando não são promessas.
Nessa canção cabem canções
dispersas.
Minha razão, teu coração,
Mil sensações avessas.
Outras virão de encontro a
nós,
De voz em voz,
De par em par: esparsas.
Pois as canções só são
canções
Quando não são mais nossas.